O Santíssimo Milagre

   No ano de 1247, vivia em Santarém, na rua chamada das Esteiras, perto da Igreja de Santo Estêvão, uma mulher, bastante desconsolada pelos maus tratos do seu marido.

   Foi aconselhada por uma vizinha, ao que parece hebreia de nação, que se fingisse doente, quando da administração da Eucaristia, e devia então esconder a Hóstia Sagrada, na beatilha com que estava toucada, para que depois, com todo o segredo, entregasse à vizinha a Sagrada Partícula. De tal sorte que, ali em diante, viveria muito bem com o seu marido!

 

   Assim procedeu a pobre mulher quando se viu só, tirou a Sagrada Partícula, e envolveu-A, no seio e correu a casa da sua conselheira, contente por se julgar no fim dos seus dias tormentosos.

   Mas Deus, querendo converter tamanha maldade em honra e glória Sua, permitiu que, passando aquela mulher pela rua ou porta que chamam de Santo Estêvão, fosse notada por algumas pessoas. Estas ficaram surpresas por verem ensanguentada a beatilha onde a mulher guardava o Corpo do Senhor.

   Advertida do facto, logo correu confusa e envergonhada para casa, escondendo a beatilha em outro pano e metendo-A na arca, onde habitualmente guardava roupa, a qual depois fechou à chave.

   Deitou-se a mulher, mas por alta noite, acordando ela e o marido do primeiro sono, viram a casa cheia de resplendores e nela ecoando suaves músicas.

   Assustado, o marido perguntou à mulher qual o motivo d tal maravilha, ao que ela tudo confessou. Ambos se ajoelharam então perante a arca, que se abriu e ali estiveram, por largo tempo, em oração, até que, ao clarear da manhã, avisaram o pároco de Santo Estêvão do acontecimento maravilhoso que haviam testemunhado.

   O sacerdote avisou toda a vizinhança e, com repetidos sinais da torre dos sinos, logo tornou público o Milagre, no resto da povoação.

 

O "Santíssimo Milagre" de Santarém, Martinho Vicente Rodrigues, 2008